Olívia Alves

Eram 5 horas da manhã. No pequeno hospital de Inhambane, nascia sob os intensos raios de sol das madrugadas africanas, alguém que, apesar de transportar consigo o anátema de ser mulher e  frágil, desde o primeiro instante resistiu, persistiu e conseguiu um lugar sob esse mesmo sol. Desde o início, enfrentou, no silêncio de quem cedo aprende a guardar o melhor para si, as pancadas da vida, mas lado a lado viu florescer o que de melhor ela nos dá: uma Fé inabalável por tudo o que transpira a presença de Deus, família, amigos, e o amor incondicional pela Terra-Mãe. Ergueu-se entre amor, medo, deslumbramento,dor e revolta, galgou as etapas obrigatórias de quem quer sair da obscuridade e marcar pela diferença, e, quando a idade cresceu, avançou e se julgava num equilíbrio sereno, viu o seu mundo desabar e com ele um futuro que nunca chegaria a ver esses raios de sol. Ainda hoje, julga viver nessa atmosfera de pesadelo, donde espera um dia fugir.

A 21 de Maio de 1954, rodeada de coqueiros, a brisa da baía de esmeralda e um céu fabulosamente azul, abria os olhos dessa mesma tonalidade para amar duas Mães, a que sempre a traria no colinho e a que conheceria os seus passos pelas vielas de colonização, a autora deste livro.

Entrou, em 1960, para a Escola Primária Carvalho de Araújo com 6 anos e de lá saiu com 10 bem sofridos; fez os cinco anos do Liceu no Colégio de Nossa Senhora da Conceição onde encontrou carinho e atenção das Irmãs franciscanas hospitaleiras; em 1969, afastou-se pela primeira vez do seu chão para estudar o 6º ano no Liceu Salazar, em Lourenço Marques. Recordará para sempre com saudade o grande Professor Dr. Pires dos Santos fabuloso mestre em Literatura Francesa. Em 1970/71, por condicionalismos da vida profissional do Pai, viajou para a então Metrópole, onde fez o 7º ano no Liceu de Vila Nova de Gaia e a admissão à Universidade, no Porto. Antes de partir para Moçambique, ainda começou na Faculdade de Letras do Porto o 1º período do curso de Filologia Românica, continuando até ao Bacharelato, em Lourenço Marques. Deixando para trás um coração partido, partiu com a alma deslumbrada com a certeza de voltar para a Terra-Mãe. Porém, a felicidade duraria pouco, pois em Novembro de 1974, por imposições políticas e traidoras, teria de abandonar para sempre o seu amor-primeiro: Inhambane, terra bendita. Em 1974/75, ainda completa o 4º ano da faculdade, mas só voltará para finalizar o curso  três anos depois, em 1978; a necessidade de recomeçar a vida que injustamente roubara 36 anos de labuta, de sacrifícios, de poupanças dos Pais, em Moçambique para glória de um Portugal maior, de que tanto nos orgulhávamos, levou a autora a começar a leccionar, interrompendo o percurso dos estudos. Iniciou-se na Escola Secundária Rainha Santa Isabel, fez o estágio, em 1978/79 na Escola Secundária Carolina Michaelis, passou pelas Escolas do Cerco, Alexandre Herculano, Filipa de Vilhena, no Porto, e Secundária de Ermesinde, tendo durante  quatro anos orientado estágios de professores nas duas últimas escolas. Lamentando sempre o estado do ensino em Portugal, não deixou nunca de cumprir a sua missão pedagógica, concluindo que muito mais poderia ter sido feito se o sistema e as condições fossem outros. Ainda frequenta por sedução o início do curso de Geografia, não terminando, e, mais tarde, o curso de Direito, outra paixão.

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